O Tottenham merece a nossa confiança

Há um bom tempo não escrevo um texto para esta coluna. Decidi aproveitar a folga inesperada que tenho nesta sexta-feira para falar um pouco sobre o momento do Tottenham na atual temporada. Mesmo que tenhamos, apenas, cerca de 2 meses de competição, é possível fazer certos apontamentos que corroborem com o título adotado neste texto.

Vamos ao clichê de começar do início: e que se entenda por início a pré-temporada do clube. Alguns jogos na Austrália, um amistoso diante da Inter de Milão e jogos-treino no próprio centro de treinamento. A preparação do Tottenham foi boa.

Levamos nossa marca para a Oceania, enfrentando os fortes Juventus e Atlético de Madrid, testando vários garotos no processo. Garotos dos quais podemos destacar, principalmente, Cameron Carter-Vickers e Shayon Harrison. Depois de uma série de treinamentos diante de adversários locais de divisões anteriores, encerramos a jornada de preparação diante da Inter de Milão: o palco foi a cidade de Oslo, na Noruega. Os Spurs impuseram um duro 6 a 1 aos nerazzuri. Para quem acha que amistoso não se leva a sério, o placar foi bem representativo e mesmo que você, leitor, não concorde com isso, a diretoria da Inter de Milão concorda, tanto que, na época acabou demitindo Roberto Mancini de seu comando técnico devido ao fracasso em questão.

Vale lembrar que foi, justamente, no amistoso diante do clube italiano quando o Tottenham pôde contar com sua força máxima, com os jogadores que disputaram a Eurocopa 2016 retornando à equipe após cumprirem seu período de férias. Então, no embalo de seu último jogo de pré-temporada, o Tottenham iniciou a temporada de 2016/2017 da English Premier League: mas foi com um empate.

A estreia dos Spurs não foi das mais fáceis: enfrentar o Everton no Goodison Park. Embora a temporada anterior dos Toffees não tivesse sido boa, a equipe estava de ânimo renovado, muito em função da troca no comando técnico: após a demissão de Roberto Martínez na temporada anterior, Ronald Koeman assumiu a vaga de treinador nos azuis de Liverpool.

Foi um começo estranho de competição. Barkley abriu o placar em uma falta de longa distância, em um lance que Hugo Lloris, que muitos julgavam estar sustentando lesão desde a época da Euro, pareceu ter falhado. Coincidência ou não, o goleiro teve de ser substituído logo aos 25 minutos de jogo, deixando seu trabalho de segurar a meta dos Spurs nas mãos do pouco confiável Michel Vorm. Inesperadamente, Vorm se mostrou muito seguro. O empate veio com um gol de Lamela na segunda etapa, quando o Tottenham não jogava bem. Stekelenburg estava em um dia inspirado e evitou a virada do time de Londres. 1 a 1 foi o placar final.

Normalmente, quando seu time estreia em uma competição importante e não vence, a frustração chega rápido à cabeça, mas era preciso colocar as coisas no papel: quantas vezes o Tottenham jogou mal, na casa de um adversário complicado, e chegou a pontuar? O sentimento de “Poderia ter sido pior” entrou em pauta.

A segunda partida também não alegrou muito a torcida. Não digo em termos de resultado, pois vencemos o Crystal Palace por 1 a 0, gol de Wanyama – que, aliás, é preciso dizer, foi o escolhido por Pochettino para substituir Dembélé durante o período de suspensão do belga. Contudo, o futebol apresentado ainda não era dos melhores. O futebol fraco se repetiu diante do Liverpool, na segunda partida seguida que tivemos em White Hart Lane: os Reds saíram na frente, mas a competitividade do Tottenham voltou a aparecer e, mesmo sem ser brilhante, o Tottenham foi buscar o empate, frustrando os comandados de Jürgen Klopp.

Quando é que iríamos apresentar um bom futebol? A oportunidade surgiu diante do Stoke City, que era o lanterna da competição naquele momento: 4 a 0 no Britannia Stadium! Conseguimos repetir o feito da temporada anterior. O que provocou essa diferença? Treinamentos mais fortes? Eriksen e Alli jogando decentemente na temporada após desempenho fraco nos jogos anteriores? A junção desses fatores à volta de um inspirado Heung-Min Son, que acabara de defender a Coreia do Sul nas Olimpíadas de 2016? De tudo isso um pouco. Foi nosso primeiro jogo empolgante da temporada.

Entretanto, os problemas voltaram a surgir: estreia do Tottenham na Champions League, Wembley lotado, Lloris voltando a defender nossa meta e… derrota por 2 a 1 para o Mônaco, com a equipe não se encontrando no campo. Que balde de água fria absurdo que foi isso. Acho que essa expressão é a que mais cabe a esse contexto: pois se a água fria pode apagar o ímpeto de uma equipe, em contraponto ela pode ser utilizada para despertar essa mesma equipe. Parece que a derrota para o Mônaco realmente fez com que nossos jogadores acordassem.

Diante do Sunderland, na EPL, a partida não foi brilhante, mas o Tottenham martelou até marcar o gol que lhe concederia a vitória: 1 a 0, gol de Kane. Mas o custo de um triunfo arrancado a fórceps não foi barato: Dembélé, Dier e Kane saíram contundidos do confronto. Se Dembélé e Dier se recuperaram ao decorrer da temporada, com Kane a situação foi – e ainda é – diferente. O atacante ainda está lesionado, mas isso fez com que Pochettino buscasse alternativas em sua equipe.

A primeira ideia foi colocar Janssen no lugar de Kane. O centroavante holandês, contratado, justamente, para ser o reserva que todos pediam para nosso camisa 10, teve sua oportunidade já diante do Gillingham, pela Copa da Liga. Não foi tão bem, mesmo com um gol de pênalti, auxiliando na vitória por 5 a 0. A verdade é que nosso novo camisa 9 parecia – e infelizmente ainda parece – ajudar mais em preparação de jogadas do que, propriamente, na conclusão delas, trazendo memórias de um certo centroavante espanhol, que vestiu a camisa lillywhite recentemente, na cabeça do torcedor.

Diante do Middlesbrough, a participação de Janssen foi um pouco melhor, mas quem voltou a brilhar foi Heung-Min Son, marcando ambos os tentos da vitória do clube por 2 a 1, na casa do Boro. O instinto artilheiro do sul-coreano fez com que Pochettino começasse a botar sua massa cinzenta para trabalhar. O CSKA, na Rússia, era o próximo adversário: o Tottenham precisava se recuperar da derrota para o Mônaco. Mais uma vez, nosso camisa 7 mostrou que está, finalmente, adaptado ao clube: 1 a 0, gol de Son.

Embalada, a equipe viu pela frente seu maior desafio, até aqui, na temporada: 7ª rodada do campeonato, Manchester City em White Hart Lane. A equipe comandada por Pep Guardiola havia vencido todos os jogos na EPL até então. O Tottenham vinha em uma crescente. Pochettino viu, ali, a oportunidade para testar uma nova formação, mais leve: Son seria o atacante principal, com Eriksen, Sissoko, Lamela, Wanyama e Alli formando o meio de campo.

Um gol contra bizarro de Kolarov e um belo gol de Alli, com assistência de Son, em rápida transição ofensiva, para não falar da partida estupenda performada por nosso sistema defensivo: o Tottenham venceu o time do momento, de forma categórica, 2 a 0.

Preciso ser justo com Sissoko. Pouco falei dele até aqui. Tem sido um jogador, taticamente, importantíssimo para a equipe. Vigor físico, velocidade e intensidade: o meio-campista francês tem todas as qualidades, além de uma boa capacidade ofensiva, para ser peça chave no elenco.

Dentro de todo esse panorama da temporada, fica claro que a equipe está em um momento ascendente. Ainda não encontramos o ponto alto de nossas atuações da temporada anterior, mas parecemos mais prontos para disputar a duríssima temporada europeia. A equipe está mais experiente, a comissão técnica está mais safa, proporcionando diferentes formas de jogar para diferentes situações de jogo.

Ainda é só o começo, poucas partidas foram disputadas, mas é preciso dizer que o Tottenham merece nossa confiança. Isso não é uma questão de otimismo, até porque, para quem já leu algum de meus textos, sabe que acabo sendo, talvez, o mais pessimista da equipe deste site no que diz respeito a assuntos do clube. O título desse texto surge no seguinte cenário: o Tottenham tem sido um time duro, que demonstra maturidade futebolística em seus jogos e merece, sim, a confiança do torcedor. Sofremos tanto ao apoiar esta equipe, que quando ela nos dá motivo para acreditar em boas perspectivas, precisamos aproveitar o momento: apoie o Tottenham, mais do que nunca, acredite na equipe, no clube.

Torcedores de última hora vão surgir, torcedores que só aparecem em bons momentos voltarão a dar as caras. Deixe-os torcerem também, deixe-os falarem o que quiserem sobre o clube: que torcem desde 1970, que viram o Bill Nicholson dar coletivas. O que importa é aproveitar o bom futebol da equipe e ver até onde esses jogadores podem ir. Esse é nosso papel como torcedor.

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Lucas Colenghi

Mineiro de Uberaba, no Triângulo Mineiro, graduando em Licenciatura em Letras com Habilitação em Português e Inglês. Tenho 21 anos e as duas coisas que eu mais odeio no mundo são: 1- acordar cedo; 2- escanteio curto. Gostar de futebol é legal até você resolver torcer para um time: com o Tottenham não é diferente.