Eu escolhi acreditar

A diferença para o líder Leicester continua em sete pontos. O eficiente time treinado pelo italiano Claudio Ranieri não dá brechas para uma aproximação. Mas há ainda 15 pontos em disputa, e, como diz aquele velho e repetido jargão, “futebol é uma caixinha de surpresas”.

Primeiramente, vale predizer que o autor que vos escreve não quer, de maneira alguma, diminuir ou menosprezar a fantástica jornada do Leicester nesta temporada. É uma campanha seguramente merecedora de título. Se a taça do Campeonato Inglês for levantada pelo jamaicano Morgan, no dia 15 de maio, ela estará em boas mãos. Este texto visa apenas trazer uma visão mais otimista do atual cenário da luta pelo título inglês.

O futebol (ou a falta dele) apresentado pelo Leicester nas últimas rodadas alimentam as esperanças dos torcedores do Tottenham. Aquele estilo de jogo divertido e irresponsável do Leicester do começo da temporada, que tinha o melhor ataque da competição e que chegou a colocar dois jogadores entre os três maiores artilheiros da competição, deu lugar a um time burocrático, defensivo, pragmático, que joga por uma bola e que vem enfileirando placares magros (o 2 a 0 deste domingo foi uma exceção às últimas cinco vitórias da equipe, todas pelo placar mínimo). O atacante Vardy, que empilhava gols na primeira metade da temporada, deu fim, neste domingo, a um jejum de seis rodadas sem marcar gols pela Premier League.

Eu escolhi acreditar. E você? (Foto: Adaptação / GloboEsporte)
Eu escolhi acreditar. E você? (Foto: Adaptação / GloboEsporte)

O calendário final dos Foxes também é bastante traiçoeiro. Na próxima rodada, o time da região central da Inglaterra recebe, no King Power Stadium, o West Ham, que vive excelente momento no campeonato, tem em Dimitri Payet um dos melhores jogadores da temporada e que luta por uma vaga na UEFA Champions League da próxima temporada. Na rodada seguinte, mais um jogo como mandante, contra um Swansea também em bom momento, com quatro vitórias nas últimas seis rodadas, sendo duas delas contra times mais poderosos: Arsenal, em Londres, e Chelsea, no País de Gales.

Nas três rodadas finais, o Leicester tem um jogo em casa, contra um cambaleante Everton, mas que conta no elenco com o postulante a artilheiro Romelu Lukaku e com o declarado torcedor do Tottenham Aaron Lennon. Quem sabe o fanatismo de Azza e o individualismo de Lukaku não possam beneficiar o Spurs na penúltima rodada.

Além desse confronto contra o Everton, os últimos três compromissos do Leicester reservam dois jogos fora de casa contra equipes acostumadas a figurar na parte de cima da tabela de classificação: Manchester United e Chelsea. Apesar da má temporada sob o comando do holandês Louis Van Gaal, os Red Devils ainda estão bem vivos na luta por uma vaga na UEFA Champions League da próxima temporada e devem endurecer o jogo contra o Leicester por este motivo.

Já o Chelsea, após uma decepcionante temporada e com remotas chances de lutar até por vaga na próxima UEFA Europa League, já anunciou o nome do novo técnico para a próxima temporada: Antonio Conte. Por conta disso, é provável que os jogadores dos Blues tenham motivação extra para mostrar serviço ao novo comandante. Em especial, aqueles que não tem vaga assegurada no elenco da próxima temporada, como Pato, Oscar, Ivanovic, Cahill, Mikel, entre outros. Ademais, este pode ser o último jogo de Terry com a camisa do Chelsea, clube pelo qual defendeu durante mais de duas décadas, e do qual é ídolo e torcedor. Junto das muitas homenagens que devem tomar conta de Stamford Bridge para o seu capitão, há aquele dever de companheiros, torcida e do próprio Terry de despedir-se com uma vitória.

Com o vistoso futebol que vem apresentando, também não é difícil imaginar que o Tottenham vença suas cinco partidas restantes. Realmente, há confrontos tão ou mais difíceis quanto os do Leicester. O rival Chelsea, o encardido Stoke e a grande “touca” (adversário aleatório que invariavelmente impõe dificuldades) Newcastle são rivais que o Tottenham enfrentará longe de seus domínios. Além disso, a equipe lillywhite receberá o forte Southampton e o ameaçado West Brom em White Hart Lane. Mas com o desempenho e o futebol apresentados até então na temporada, o momento vivido pela equipe, a moral elevada após uma vitória contundente por 3 a 0 contra o maior campeão inglês da história, e o elenco praticamente completo nesta reta final de temporada, pode-se acreditar sim na conquista de 100% dos pontos ainda em disputa.

E se é para nos apegarmos a reviravoltas históricas, vamos a algumas recentes, que ainda estão frescas em nossa memória. Para ficar na própria Premier League, o campeão da temporada 2011/2012, Manchester City, tinha desvantagem de oito pontos para o líder Manchester United, faltando apenas seis rodadas para o fim do campeonato. Já o Campeonato Brasileiro de 2009 nos dá dois bons exemplos de superação e de triunfo inesperado: o campeão Flamengo ocupava apenas a sexta colocação na 32ª rodada daquele campeonato. Na mesma rodada, o Fluminense era o lanterna e tinha uma desvantagem de oito pontos para o futuro rebaixado Coritiba.

Mas obviamente que, se fosse tão fácil como descrevi, a liderança já estaria um pouco mais próxima. O estilo de jogo mais burocrático do Leicester nas últimas rodadas vem dando bastante resultado. É nesta reta final de temporada que o Leicester conseguiu sua maior sequência de vitórias consecutivas: cinco. E esta série de triunfos continua ativa.

A eficiência do Leicester é impressionante. Uma defesa muito bem montada que não toma gols, um time que se doa e deixa tudo que pode em campo, uma equipe bastante aplicada taticamente e com bola parada mortal. Claudio Ranieri é o grande responsável pelo sucesso desse time e, deve ser exaltado como tal.

Às vezes, somos injustos com os Foxes (eu incluso) quando falamos em sorte. É tirar o mérito de uma equipe eficiente. Se o adversário perde gols inacreditáveis e acerta por muitas vezes a trave do goleiro Kasper Schmeichel, é por incompetência própria. Se o Leicester é a equipe que mais cobrou pênaltis na temporada e vem sendo bastante beneficiada pela arbitragem no campeonato, a culpa é da comissão responsável, que não prepara bem seus árbitros e permite que juízes despreparados trabalhem em jogos importantes. O futebol apresentado em campo é certamente inferior ao jogado pelo Tottenham, mas a palavra-chave da surpreendente campanha do Leicester é “eficiência” e não “sorte”.

Em suma, ESTAMOS VIVOS SIM! Respirando por aparelhos, dependendo de resultados paralelos, precisando ganhar todos os jogos, torcendo contra um time eficiente, com baixa probabilidade de triunfo e considerados os azarões. Tudo isso é verdade. Mas quando ainda houver chance, nós torcedores temos o direito de acreditar.

E para aqueles que, como eu, gostam de “prever o futuro” e simular os resultados do campeonato até o fim da temporada, aqui vai uma sugestão de um site que permite a simulação de campeonato esportivos, incluindo o campeonato inglês: http://www.worldfootball.net/table_calculator/eng-premier-league/. Faça este exercício e ateste, você também, que o título ainda é possível.

#CalculamosJuntos (Foto: Reprodução / WorldFootball.net)
#CalculamosJuntos (Foto: Reprodução / WorldFootball.net)
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Fábio Malet

Gaúcho de Porto Alegre, bacharel em Ciência da Computação e analista de sistemas. Apaixonado por esportes, tem o jornalismo como um hobby, e, pretende, futuramente, fazer pós-graduação na área. Acompanha o Tottenham desde o começo da temporada 2002-03, por causa de Robbie Keane, do qual tornou-se fã pelo seu desempenho na Copa do Mundo 2002. No Brasil, torce para o Grêmio desde suas primeiras palavras.