TB Perfis – Serhiy Rebrov

O perfil de hoje é para quem acha que Lamela, Paulinho e Soldado foram as primeiras contratações caras do Tottenham que se tornaram fracassos retumbantes. Os temidos flops não são novidade, um deles merece destaque por tudo que parecia ser e não conseguiu se tornar em White Hart Lane. O ucraniano Serhiy Rebrov era a contratação perfeita. Companheiro de ataque de Andriy Shevchenko por várias temporadas no Dínamo de Kiev, fazia caminhões de gols em seu país, mesmo após a saída do maior jogador da história do futebol da Ucrânia. Por sua carreira, seus bons momentos e toda a expectativa que rondava seu futebol, Rebrov é o décimo biografado na Série Tottenham Brasil – Perfis.

Molecote soviético

Serhiy Rebrov Stanislavovych nasceu no dia 3 de junho de 1974, na cidade soviética de Gorlovka, região próxima a Donetsk. No clube da região, o Shakhtar, deu seus primeiros passos no mundo da bola. Fez a categoria de base pelo time (ainda soviético) e estreou no futebol profissional em 1991, com recém completados 17 anos. Tratado como uma joia pelo clube, logo em sua primeira temporada disputou 10 partidas e marcou 3 gols. Nada mal para um adolescente jogando em uma equipe que não sonhava em ser ser a potência dos dias atuais.

Aula de história – TB também é cultura

Se alguém não sabe, a URSS (União das Repúblicas Socialistas Soviéticas) era uma nação socialista que reunia uma série de países. Claro que ninguém vai aprender nada a respeito aqui, trata-se de apenas uma pincelada extremamente superficial sobre o regime que perdurou em 15 nações, entre 1922 e 1991. A Ucrânia fazia parte desse grupo, juntamente a países como Rússia, Lituânia, Geórgia, Azerbaijão, Bielorrússia, Estônia, Armênia, e mais uma galera. Daí veio o processo de dissolução da URSS, em 91, e a divisão dos países.

O Skakhtar era um clube pequeno e havia perdido seu zagueiro e capitão Viktor Onopko, para o Spartak Moscou. Mesmo sem grandes referências, Rebrov se tornou a principal esperança da equipe. Como titular na temporada, conseguiu se destacar ainda mais. Em um total de 25 atuações, anotou 11 gols e levantou de vez o interesse do gigante do país, o Dínamo de Kiev. Se juntou a equipe a partir da temporada 1993 para jogar o melhor futebol da sua carreira e integrar um dos melhores times da história do país.

Tempos difíceis em Kiev

A chegada ao novo clube veio com expectativa, mas o camisa 11 não conseguiu render de imediato. Na primeira época foram 31 atuações e apenas 7 gols. Em 1994, começou a enfrentar um novo adversário, a parte física. Sofreu uma lesão que lhe custou boa parte da temporada, atuando apenas em 13 ocasiões, com 3 gols. A partir de 1995, sua carreira teria uma guinada com a subida de um jogador da base que se tornaria simplesmente o maior jogador ucraniano da história: Andriy Shevchenko.

A parceria

Sheva e Rebrov não se tornaram titulares imediatamente. Um oriundo da base e o outro vindo de duas temporadas de instabilidade, muitas vezes disputaram a vaga no time principal. Rebrov marcou 10 gols na temporada, Shevchenko apenas 3. Em 1996, Shevchenko melhorou seu desempenho, Rebrov se consolidou como titular e marcou outros 10 gols. Em 1997, Serhiy foi o grande jogador da equipe, marcando 20 gols na temporada, enquanto seu companheiro fez apenas 6, envolto em muitas lesões. Agora em 1997/98…

Eles foram perfeitos. Atacantes complementares, uma dupla do mais alto nível que se pode imaginar, ambos marcando muitos gols, dando assistências e levando o Dínamo de Kiev à condição de equipe temida em todo o continente. A campanha na Liga dos Campeões da temporada surpreendeu e emocionou. Aplicou 3×0 no Barcelona em Kiev e não tomou conhecimento dos catalães no Camp Nou, enfiando um 4×0 espetacular. Rebrov marcou nos dois confrontos, Sheva meteu um hat-trick em território espanhol.

A equipe parou nas quartas de final para a futura vice-campeã Juventus, após 1×1 na Itália e surpreendente derrota por 4×1 dentro de casa. Pippo Inzaghi abriu o placar, Rebrov igualou. Em atuação espetacular, Inzaghi fez mais dois e Del Piero fechou o caixão. Shevchenko decepcionou nos dois confrontos. O saldo no fim das contas foi positivo, Rebrov foi às redes 37 vezes. O camisa 7, foi outras 33. Nada mais nada menos que 70 gols de uma dupla de ataque em uma temporada. Dos títulos, falaremos em breve.

Na temporada seguinte, a equipe veio forte de novo na Liga dos Campeões. Rebrov era o grande nome até a fase de grupos, mas sofreu uma queda de rendimento que custou caro ao time. Nas quartas, o Real Madrid. Empate por 1×1 em Madrid, vitória por 2×0 em casa e vaga na semifinal, com Shevchenko fazendo todos os gols. Bayern de Munchen em sequência, um espetacular 3×3 em Kiev. Em Munique, Mario Basler fez o gol fatal. E o Dínamo ficou pelo caminho mais uma vez.

E agora, José?

Rebrov marcou “apenas” 22 vezes no ano, 8 na Liga dos Campeões. Shevchenko voltou a fazer 33 gols na temporada e sua permanência se tornou insustentável. Rumou ao Milan por 25 milhões de dólares. Rebrov perdeu seu companheiro de ataque, vinha de uma temporada menos decisiva… o enfraquecimento era notório. No entanto, Husin e Kaladze, líderes no meio-campo e na defesa permaneceram no clube. Foram contratados Maksim Shatskikh e Georgi Demetradze para tentar suprir a ausência do negociado Sheva. Sem muito sucesso.

Independente disso, lá estava Rebrov novamente levando o Dínamo adiante. Passou pela primeira fase de grupos da Liga dos Campeões, mas parou na segunda, tendo como adversários Rosenborg, Real Madrid e Bayern de Munchen. A derrota em casa para os merengues por 2×1 (onde Rebrov marcou), fez a diferença no fim, com as equipes empatadas com 10 pontos e o Real levando a vantagem no saldo de gols. Foram 30 gols em 40 partidas na temporada. Rebrov jogou 8 temporadas no Dínamo, foi campeão ucraniano em todas as oportunidades. Além disso, angariou a Taça da Ucrânia nas temporadas 1992/93, 1995/96, 1997/98, 1998/99 e 1999/00. Foram 283 jogos pelo maior clube do país e 139 gols.

Seguindo os passos

Rebrov buscava um novo desafio, o Tottenham buscava um novo atacante. Assim como seu amigo Shevchenko fizera um ano antes, era hora do camisa 11 de Kiev adentrar a uma grande liga europeia. Após os Spurs especularem nomes como John Hartson, Jimmy Floyd Hasselbaink e Mark Viduka, foi Rebrov quem chegou em 2000 e como a transferência mais cara da história do clube, tendo custado 11 milhões de libras, quase o dobro de Les Ferdinand, que ocupava o posto de homem mais caro da história quando se juntou ao clube por 6 rainhas Elizabeth’s. Com contrato de 5 temporadas e ganhando “exorbitantes” 25 mil libras semanais, recebeu a camisa 11 do treinador George Graham.

Rebrov seria o atacante titular junto ao próprio Les Ferdinand, camisa 9 experimentado e com passagem pelo English Team. Estreou no dia 19/08/2000, na vitória por 3×1 sobre o Ipswich, em White Hart Lane. Seus primeiros gols vieram três jogos depois, no triunfo sobre o Everton, também em casa. Após os Toffees abrirem 2×0 no marcador, Rebrov marcou duas vezes, empatando o jogo. Les Ferdinand fez o terceiro e consolidou a virada. No entanto, os gols rarearam e o desempenho da equipe esteve longe o ideal. Graham, o treinador que pediu a contratação de Rebrov foi despedido e em seu lugar assumiu Glenn Hoddle. Era o início do fim para Rebrov nos Spurs.

A frustração

Hoddle não se mostrou um grande entusiasta pelo futebol do ucraniano. Deu a ele quatro oportunidades, o Tottenham venceu duas partidas e perdeu duas. Rebrov não marcou e foi sacado da equipe, não voltando mais na temporada. Ao todo, atuou 36 vezes e marcou 12 gols na época, sendo o artilheiro do time. Não se pode dizer que foi exatamente uma má temporada. Para a temporada seguinte, a equipe se reinventou e passou a jogar um futebol bonito, de muita técnica. Nomes como Anderton, Ziege, Poyet, Freund, Sherwood, Sheringham, Ferdinand e Simon Davies tomaram os holofotes.

Rebrov se tornou um mero reserva. A concorrência no ataque era insana, com Sheringham e Les Ferdinand assumindo as posições de titulares e Steffen Iversen pedindo passagem. Titular apenas nas Copas e entrando no fim das partidas mais importantes, foi minado pelo treinador. Fez pouco para contrariar as expectativas e não se mostrava aquele atacante implacável de outrora. Na segunda temporada, foram 39 aparições e 4 tentos, um deles marcado na goleada sobre o Chelsea por 5×1. Em 19 de abril de 2002 vestiu pela última vez a camisa do Tottenham, em um empate por 1×1 contra o Bolton. Substituiu Iversen no intervalo, foi sacado por Hoddle 40 minutos depois para a entrada do péssimo zagueiro/centroavante (sim, você leu certo) Gary Doherty. No frigir dos ovos, foram 75 jogos e 16 bolas na rede.

Rodando por aí

Indesejado nos Spurs, foi emprestado para o Fenerbahçe. Ficou por lá duas temporadas seguidas, onde atuou 43 vezes e fez 5 gols. Conquistou na terra onde Alex é rei, o título turco de 2003/04. Após o fim do contrato com os Spurs, assinou com o West Ham por uma temporada. Jogando na Championship, deu razão a Hoddle com um desempenho pobre, 32 jogos e apenas 2 gols.

De volta pra casa

Voltou ao Dínamo de Kiev em 2005/06, realizando ótima temporada e fazendo 14 gols em 34 partidas. Sentindo o peso da idade, jogou mais duas épocas no clube, com rendimento abaixo do habitual. Ajudou a equipe em mais algumas conquistas, como o Campeonato Ucraniano 2006/07, a Taça da Ucrânia 2005/06 e 2006/07. Completou seu palmarés com a Supertaça da Ucrânia 2006 e 2007. Em 2008 se transferiu para o Rubin Kazan, da Rússia, onde fez 33 jogos, 5 gols e pendurou as chuteiras, em 2009.

Na seleção

Estreou pela Seleção da Ucrânia em 1992, quando ainda atuava pelo Skakhtar. Entrou aos 31 do 2º tempo no empate em 0x0 com os Estados Unidos, na terra do Tio Sam. Marcou seu primeiro gol apenas em 1996, numa vitória pelo placar mínimo sobre a Irlanda do Norte. Fez parte do momento mais marcante da história de seu país quando participou da classificação para a Copa do Mundo 2006, pela primeira vez na história. Atuou em apenas um jogo nas Eliminatórias mas atuou nos quatro jogos da equipe no Mundial, marcando um gol na vitória de 4×0 sobre a Arábia Saudita. No total, entrou em campo 75 vezes e balançou as redes adversárias em 14 oportunidades.

O comandante

Rebrov é o típico caso do jogador que parece ter nascido para um clube. Com ligação estreita com o Dínamo de Kiev, se tornou auxiliar técnico do time B em 2009/10. Conciliou o trabalho com a posição de auxiliar técnico da seleção ucraniana, ao passo que virou o treinador adjunto de Oleg Blokhin. Após a saída de Blokhin, assumiu a condição de treinador principal da equipe. Conquistou a Taça da Ucrânia na última temporada e na atual está na semifinal do torneio contra o Dnipro, além de liderar o campeonato nacional, com 5 pontos de vantagem para o rival Shakhtar. Aparentemente, os dias de sucesso de Rebrov em Kiev estão longe de acabar.

O futebol não é feito apenas de grandes craques bem sucedidos. Até os flops tem espaço no jogo e ajudam a contar a história dos clubes. Rebrov vem se provando um técnico valoroso e teve uma carreira sensacional, por mais que nunca tenha se provado no mais alto nível pelos Spurs. Se seu fim seria diferente com um treinador menos cabeça dura é impossível dizer. E contar o que cada um fez, craques ou bagres, é o papel dessas biografias. Agradecimentos pelos bons momentos desfrutados e por ser um capítulo integrante na vida do Tottenham Hotspur.

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Emerson Araujo

Jornalista, aficionado por futebol, torcedor do Cruzeiro (de nascença) e do Tottenham (desde 2005). Orgulhosamente, um dos fundadores da Tottenham Brasil e colaborador do Guerreiro dos Gramados, site voltado a cruzeirenses. Odeia Guardiolismos e acredita que atacante tem que fazer gol. Acredita que todo dia é um 7 a 1 diferente e não há nada de mau nisso. Exímio treinador no Football Manager.

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