TB Perfis – Bill Brown

O time do Tottenham que conquistou o Double de Campeonato Inglês e Copa da Inglaterra na temporada 1960/61 tinha nomes realmente marcantes como Dave Mackay, Danny Blanchflower, Les Allen e Bobby Smith. No entanto, pouca gente vai se lembrar de quem segurava a bronca na meta, um certo Bill Brown. O goleiro, amaldiçoado e afortunado por poder usar as mãos, salvou a lavoura incontáveis vezes naquela campanha, defendendo a meta dos Spurs por sete temporadas, conquistando seis títulos. E é o biografado da semana na série Tottenham Brasil – Perfis.

 Primeiras catadas

William Dallas Fyfe Brown nasceu em Arbroath, Escócia, no dia 8 de outubro de 1931. Deu seus primeiros passos no futebol como atacante, nos junvenis do Carnoustie Panmure. Lá foi deslocado para a posição de goleiro e se firmou, até que em 1948 foi contratado pelo Dundee, em um contrato amador, recebendo 7 libras por semana. Seu pai, leiteiro, não gostou nada do sonho de Bill e queria que seu filho seguisse uma “profissão de verdade”. Para satisfazer o desejo de seu pai e como não treinava em tempo integral no Dundee, Bill concluiu sua formação como um engenheiro elétrico na mesma época.

Um choque poderia ter encerrado sua carreira antes mesmo de começar. Em um treino pelos juvenis da Seleção Escocesa, Brown sofreu uma grave lesão que lhe rendeu fraturas de nariz, mandíbula e mais um osso do rosto. No entanto ele se recuperou e se profissionalizou em 1950, se tornando titular da equipe na temporada seguinte. Concluiu seu treinamento militar na RAF e era marcado por seu espírito forte e sua coragem debaixo dos postes, algo que o fez se destacar no Dundee.


Na seleção

Em 1951-52, conquistou o título da Copa da Liga pelo clube após uma eletrizante final contra o Rangers, vencida por 3×2 no Hampden Park. A partir daí, firmou-se de vez como titular, chamando também a atenção da seleção. Figurinha carimbada nas convocações, era reserva de Tommy Younger. Em 1958, durante a Copa do Mundo, teve sua primeira oportunidade na equipe, substituindo o indisponível Younger. Apesar da derrota por 2×1, o desempenho de Bill Brown impressionou, especialmente ao parar diversas vezes as estrelas francesas Juste Fontaine e Raymond Kopa. Seguiu jogando pela Escócia até novembro de 1965, quando se retirou oficialmente da seleção, após 28 aparições.

Na rota dos Spurs

O Tottenham buscava reposição para o seu goleiro Ron Reynolds, sobrevivente da campanha do título inglês de 1950/51. O Dundee vivia problemas financeiros e a solução foi vender o seu arqueiro, que havia disputado 215 partidas pelo emblema apenas na liga local, pois não existem dados confiáveis de suas atuações em outros torneios. Por £ 16.500 foi selada a transação e em 1959, Bill Brown se juntou ao elenco comandado por Bill Nicholson. Após uma ferrenha disputa pela titularidade com Reynolds, Brown ganhou a condição e de certo modo causou a saída do seu concorrente do clube. Era o início de uma era vencedora.

Brown foi titular durante toda a temporada 1960-61, sendo peça efetiva na conquista da Liga e da FA Cup. O Double, primeiro do século na Inglaterra, é celebrado ainda hoje como um dos mais mágicos times da história dos Spurs. Na temporada seguinte, Brown seguia como titular no time bicampeão da FA Cup e na conquista da Taça das Taças, em 1963, lá estava ele novamente com a camisa 1. Neste período, faturou também duas Supercopas, a tradicional Community Shield.

A saída

Em 1964/65, Bill Brown começou a ser questionado por algumas falhas e apontado como um dos responsáveis pela queda de rendimento da equipe. Nicholson começou a experimentar o jovem e cabeludo Pat Jennings, recém chegado do Watford e que se tornaria uma verdadeira lenda dos Spurs. Brown tinha 33 anos, idade considerada de maturidade e segurança para um goleiro e a necessidade de disputar novamente o posto não lhe agradou nada. Após amargar a reserva em boa parte da época 1965/66, optou por deixar o clube de modo pouco amigável, após 215 atuações e seis títulos conquistados.

Últimos passos

Após afirmar que não desejava ser um reserva no Tottenham, Brown fechou acordo com o inexpressivo Northampton, onde ficou apenas uma temporada. Insatisfeito com os rumos de sua carreira e já pensando em pendurar as chuteiras, resolveu dar uma guinada e foi jogar no futebol canadense, após convite do Toronto Falcons. A equipe nem disputava uma liga oficial, visto que a FIFA não reconhecia o futebol no país. Acabaria na América a carreira de Bill Brown, onde ele daria continuidade à sua vida como funcionário do governo de Ontario, onde trabalharia até 1995, quando se aposentou.

Os últimos anos de Bill foram de fortes emoções, mas bem longe dos gramados. Em 1988, sofreu um ataque cardíaco, que o convenceu a cortar os 40 cigarros que fumava por dia. Em 1994, ele foi diagnosticado com câncer de próstata, que conseguiu curar e sobreviver. Faleceu de causas naturais no dia 30 de novembro de 2004, aos 73 anos. Este perfil é uma mísera homenagem a um homem que defendia da forma que podia as cores do Tottenham e se provou tantas vezes um goleiro de topo, por mais que nenhum de nós tenha o visto de fato em ação. Longe das riquezas e do sucesso do futebol atual, homens como Bill Brown construíram a história dos Spurs e o tornaram o gigante que é hoje. Saudações e agradecimentos, ainda que póstumos, a um guerreiro, a um infeliz, a um herói; a um goleiro.

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Emerson Araujo

Jornalista, aficionado por futebol, torcedor do Cruzeiro (de nascença) e do Tottenham (desde 2005). Orgulhosamente, um dos fundadores da Tottenham Brasil e colaborador do Guerreiro dos Gramados, site voltado a cruzeirenses. Odeia Guardiolismos e acredita que atacante tem que fazer gol. Acredita que todo dia é um 7 a 1 diferente e não há nada de mau nisso. Exímio treinador no Football Manager.

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