Sentir o pé na terra

Os parágrafos a seguir são palavras otimistas de um dos torcedores mais pessimistas que você tem ou terá o desprazer de conhecer na sua vida.

No último sábado, contra o Aston Villa de Tim Sherwood, morreram todas as esperanças remanescentes de uma classificação para as competições europeias – esperanças que já eram pouquíssimas, por sinal, dada a competitividade e o alto nível de comprometimento dos na tabela. Contra o Villa, mostramos a mesma cara apática que estamos acostumados a mostrar quando precisamos muito construir o resultado. Sherwood, com o gosto da vingança na boca (já falei disso em outro texto), soube muito bem o que fazer e como fazer para anular quaisquer tentativas de reação e criar oportunidades em cima da submissão de um time que adormece quando é pra estar alerta e vice versa. Oras, já é nosso modus operandi! Você sabe disso. Tim Sherwood também.

Então, reitero: ali sucumbiram todas as chances de uma classificação para jogar torneios da UEFA. Todas. Todas mesmo. Não se iluda, caro leitor. Depois de cinco bons anos viajando para todos os cantos do Velho Continente, o cockerel vai passar a próxima temporada sem se aventurar além do mar.

O negócio é que a falta de viagens para outros cantos do continente no calendário é um problema colossal. Não só pela arrecadação menor em ingressos ou premiações, mas também na montagem do elenco para a próxima época. Jogando nas competições europeias, é mais fácil segurar seus bons jogadores e atrair outros até melhores, aquela história de sempre – basta olhar para o nosso esquadrão completo no ano de 2009 e o de agora; a mudança é abismal.

Nossa relação com a Champions League é a sua relação com aquela garota maravilhosa que, por incrível que pareça, sempre parece estar na sua. Vocês trocam umas palavras de vez em quando e  até que se entendem porque já tiveram experiências juntos num passado não tão distante. Só que sempre que você começa a elogiar demais querendo se reaproximar, toma um gelo pra ficar esperto e só voltar ao flerte semanas depois. Normal. E o pior é que tem vezes que você consegue chamá-la pra sair. E ela aceita (!). No dia, você tá vestindo aquela roupa arrebatadora e todos os seus amigos te encheram de “hoje vai, é só pegar” durante a semana toda. Acontece que na hora H sempre chove, e o ônibus passa voando na poça d’água do seu lado. E ela está lá, magnífica e esplendorosa como de costume. Mas agora ela parece inalcançável, intocável. Você não diz nada de mais. Ela não diz nada de mais. E aí vocês se olham até que aquele outro cara mais bonito e arrumado apareça e a puxe pro lado pra fazer o trabalho que você, novamente, fracassou em fazer.

Aliás, até depois desse rolo todo, o que o Tottenham faz também é exatamente o que você faz: se contenta em ficar com a amiga feia. Quer dizer… Tá certo, ela não é tão feia. É que ela não é tão linda quanto a primeira. Mas você se contenta, enfia um sorriso na cara e parte pro abraço. Todo mundo sabe que não é o que você queria – inclusive você mesmo, seu tonto – mas você continua lá forçando aquela alegria artificial, porque é o que tem pra hoje. E pior: nem assim consegue ir até o final, se é que me entende.

Ficaremos, outra vez, sem jogar nas terças e quartas em que todas as televisões do mundo param pra ver o espetáculo da Champions League. Ficaremos, desta vez, sem jogar sequer nas quartas e quintas feiras em que os gramados dos lugares mais inóspitos da Europa ganham um holofote e seus 90 minutos de fama. Ficaremos sem reforços de peso, perderemos um ou outro jogador importante, não teremos disponível a verba descomunal das últimas temporadas, passaremos por mais uma remodelagem de elenco, equipe técnica e diretoria e talvez até viveremos uma delicada situação de mudança de estádio, alugando alguma cancha por aí pra chamarmos de casa pelos próximos dois ou três anos.

Vai ser complicado. Mas teremos algo que nunca foi tão necessário em nossa história recente e calhou de acontecer no momento perfeito: vamos voltar a tocar o chão com nossos pés descalços.

Depois de anos de promessas vazias que foram por água abaixo, o Tottenham subiu num sapatinho de cristal que foi forjado por sua própria administração e pelas mirabolações da imprensa, e moldado pela esperança dos torcedores que, assim como eu, estão ansiosos por um futuro brilhante. Só que nada é assim tão fácil. Sem benefícios, sem regalias e sem motivos para se colocar acima de nada nem ninguém, agora o clube terá toda uma temporada para começar a repensar seu planejamento para futuro – dessa vez, com uma estrutura mais sólida e uma filosofia muito bem aplicada.

Ficar sem disputar a Champions League ou a Europa League pode ser triste, sim. Eu sei como é aguentar incontáveis piadas dos amigos, ter que assistir aos anúncios da Heineken com os craques dos times rivais ou ver todo mundo se mobilizando na frente da TV ou do computador numa tarde de meio de semana e ficar olhando pra um canto de parede lembrando daquele gol do Crouch no San Siro. Eu sei como é ruim. Mas também sei que, de repente, pode ser bom.

A última temporada que ficamos longe das competições europeias foi a de 2009/10. E todos nós lembramos como ela se desenrolou.

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  • wagner

    Concordo com você que é hora do Tottenham sentir o chão com os pés descalços, só que por incrível por que pareça VAI acabar caindo no colo do clube uma vaga na liga Europa na próxima temporada. São 3 vagas. Se não me engano, uma para o quinto colocado, uma para o campeão da copa da liga ( que esta temporada é o chelsea, já garantido na próxima champions, então abre para o sexto) e uma para o campeão da FA Cup ( que está na semi, com Arsenal, atual segundo colocado, e Liverpool, atual quinto, na disputa. Se um dos dois ganhar abre vaga para o sétimo, certo?). Logo, apesar da preguiça, tiriça, má-vontade, aliada à falta de qualidade, que assolam o Tottão, o Tottenham vai porque quem está abaixo de sétimo hoje dificilmente emplacará uma sequência pra que terminemos abaixo disso.

  • Marcio Assuncao

    Concordo com o Wagner.
    Acho que dá pra morder uma vaga na Liga Europa sim.
    E, sinceramente, nem esperava nada muito melhor que isso.
    Soldado, Lamela e Paulinho estão ruins das pernas desede a temporada passada. Acho até que Paulinho é o menos culpado dos três, pois tem sido insistentemente escaladao em uma posição que não é a sua. Com essas limitações, eu até pensei que a atual temporada seria pior – e seria mesmo, não fosse o surgimento estrondoso de Harry Kane.
    A questão é, e insisto mais uma vez, os Spurs tomam tantos gols não por culpa da zaga, mas porque não tem um meio campo que consiga segurar a bola. Não dá para depender só do Eriksen, bastante irregular por sinal. Da mesma forma que não há no elenco um só jogador com as características de segundo atacante.
    As vezes é tão difícil enxergar o óbvio!!