Tim Sherwood e o complexo do salto alto

Existe um conto na mitologia grega que relata a história de Aracne, uma princesa que queria aprender a tecer as mais belas rendas do Olimpo. A princesa procurou ajuda e decidiu recorrer à deusa Minerva para aprender a técnica. Depois de um longo tempo de aprendizado, a aluna se apropriou das mais preciosas e difíceis técnicas do bordado.

Aracne, então, entrou em um concurso de tecer, do qual saiu vencedora – ganhando inclusive de sua professora Minerva. Porém, quando questionada sobre como aprendeu a arte de tecer com tamanha maestria, a Aracne não citou as aulas que teve com a deusa e orgulhosamente se declarou autodidata.

Incrédula, Minerva sabia que seus poderes não podiam mais tirar a habilidade e a técnica de Aracne, mas podiam mudar sua forma física; a deusa, então, transformou sua aluna em uma aranha.Dali em diante, a aranha se tornou a criatura que tece belos fios de seda durante toda a sua vida, mas que morre fadada a ver seu trabalho desfeito por vassouras.

O mito de Aracne é exatamente o que se vê quando tentamos olhar o âmago do clube nos últimos cinco anos, e o destino fez com que uma de nossas Minervas reaparecesse no White Hart Lane para, novamente, nos colocar no devido lugar; no cantinho do castigo.

Tim Sherwood pode não ter sido o técnico mais sábio, mais disciplinado, mais comprometido ou mais competente, mas com certeza teve seus méritos por uma coisa ou outra. Saiu pela porta dos fundos, brigado com a torcida e com a diretoria que o colocou na fogueira e deixando um legado marcado por ações arriscadas, deslizes, estatísticas vazias e um colete.

Acontece que foi Sherwood que redefiniu o status do Tottenham como um time ofensivo e com poder de fogo, coisa que não ocorreu sob o comando de Villas-Boas. Foi Sherwood que não deixou os status e as etiquetas de preço influenciarem as escalações, começando a explorar de verdade as categorias de base e trazendo para o time profissional nomes como Bentaleb e Kane. Foi Sherwood que tirou leite de pedra – por pedra, entende-se Emmanuel Adebayor – e conseguiu agarrar uma suada sexta colocação e a classificação para a Europa League.

Claro que ele também teve seus deméritos, desde os atrasos para alguns jogos importantes impossibilitando a realização de preleções ou quaisquer momentos de concentração e motivação até as críticas sem pé nem cabeça ao comprimento do gramado (?!) ou as piadas em horas (muito) inoportunas. Sherwood disse nesta semana, inclusive, que fez seu trabalho no Tottenham do jeito que bem entendesse por simplesmente não ter apoio de seus superiores ou da torcida. Ou seja, sabendo que estava tocando o barco sozinho, Tim decidiu remar à sua maneira – e esta sua maneira de remar acabou sendo absolutamente rechaçada.

Pois bem, após a demissão, a imagem do treinador parecia mais desgastada do que o gramado perto das bandeiras de escanteio. A torcida, então, aproveitou para chutar cachorro morto. Sherwood virou um pária e meio que só deixou de ser com a chegada da nova temporada. O novo treinador e a nova filosofia, gradativamente, fizeram Tim cair no esquecimento do torcedor mais ranzinza.

O negócio é que o torcedor do Tottenham e o próprio Tottenham não caíram no esquecimento de Tim. Muito pelo contrário. Dizendo-se grato e aliviado por ter sido demitido do clube, o ex-comandante procurava por sua oportunidade de vingança, ou simplesmente de mostrar a nós como fomos injustos e arrogantes com o dito cujo.

A vingança dessa vez veio rápido, e de um homem que não tinha mais a esconder, muito menos a perder. Mas ele não foi o único a ser afetado pelo ranço da nossa torcida e administração.

Juande Ramos, demitido poucos meses depois de vencer o único título do clube nos últimos anos, também é visto com maus olhos, muitas vezes chamado de “burro” e “sortudo” pela imprensa inglesa. Redknapp, então, levou o Tottenham ao seu ponto mais alto das últimas décadas e foi deposto assim que a coisa começou a desandar. Villas-Boas também merece crédito por inúmeros feitos e até pelos 100 milhões que o clube embolsou, mas até hoje a torcida o enxerga como uma grande farsa.

Não que as demissões supracitadas tenham sido totalmente injustas, nem que tenham sido totalmente justas. Não estou dizendo o que é certo e errado, mas sim apontando fatos que mostram que nossa torcida se tornou extremamente crítica e exigente em muito pouco tempo, sem motivos concretos para tal. Já há algum tempo, contamos com as pérolas sem ao menos começar o árduo trabalho de abrir as ostras.

Termino o texto com uma passagem bíblica que ficou famosa por causa do filme Pulp Fiction. Se você, leitor, consegue compreender, relacionar e adaptar a passagem abaixo com todo o cenário dentro e fora das quatro linhas do White Hart Lane nos últimos cinco anos, você entendeu bem o que eu quis dizer.

“O caminho do homem justo está cercado por todos os lados pelas iniquidades dos egoístas e pela tirania dos perversos. Bendito é aquele que, em nome da caridade e da boa vontade, pastoreia os fracos pelo vale das trevas, pois ele é verdadeiramente o protetor de seus irmãos e o salvador dos filhos perdidos. E Eu atacarei com grande vingança e raiva furiosa aqueles que tentam envenenar e destruir meus irmãos. E você saberá: meu nome é o Senhor quando minha vingança cair sobre ti!”.

Ezequiel, 25:17

 

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  • Marcos Passarella

    Citação de Ezequiel 25:17 também encontrada no “túmulo” de Nick Fury em Capitão América – Soldado Invernal… Citações a parte, belo texto!

    (Só acrescento que Martin Jol foi apunhalado pelas costas, quando a diretoria foi atrás do Ramos)

  • Vinícius

    Sempre fui e sempre serei contra a demissão de Tim, não sei se sou o único que penso assim, mas pra mim ele foi o nosso melhor técnico nos últimos 10, talvez até 20 anos. Qual era a situação do Aston Villa antes dele assumir o cargo mesmo?

  • Lucas

    Amém!

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