TB Perfis – Mido

Nunca foi um craque. Se você acompanha o futebol brasileiro, pode imaginar esse jogador com o mesmo estilo do boliviano Marcelo Moreno, ídolo do Cruzeiro e com passagens por Grêmio e Flamengo. Fato é que o egípcio Mido nunca foi um sujeito muito normal. Seu jeito de jogar com muita luta e determinação, seu espírito indomado, o temperamento difícil e a capacidade de fazer gols improváveis (e perder gols feitos) fizeram dele um atleta no mínimo interessante. Passou por onze equipes na carreira, poucas com sucesso. Talvez a mais marcante passagem de sua vida na Europa tenha mesmo sido em White Hart Lane. Por ter honrado como poucos a nossa camisa nesses tempos de futebol gourmet, ele é o escolhido da semana para a série Tottenham Brasil – Perfis.

O início

Ahmed Hossam Hussein Abdelhamid nasceu em Cairo, no Egito, em 23 de fevereiro de 1983. Deu seus primeiros chutes ainda criança, nas categorias de base do Zamalek, época em que adotou o apelido Mido. Se profissionalizaria em 2000, com apenas 17 anos. Jogador alto e dotado de boa técnica, canhoto e que conseguia utilizar o pé direito para algo além de subir no ônibus, não demorou a ter oportunidades e fazer sucesso em seu clube de coração. Estreou pelo Zamalek em 22 de maio de 2000, num empate por 0x0 contra o El Qanah. Três dias depois marcaria seus dois primeiros gols, contra o Aluminium Nag Hammadi, numa vitória por 3×2.

Faria sua estreia em competições continentais na semifinal da Copa dos Campeões Africanos, em um triunfo sobre o Ethiopian Coffee por 2×1 onde Mido anotou o segundo gol. Como no primeiro confronto seu time havia perdido pelo mesmo placar, a disputa foi para os pênaltis e o Zamalek venceu por 4×2. Na final, vitória sobre o Canon Yaoundé por 4×3 e o primeiro título da carreira. Disputou 5 jogos e marcou 3 gols pelo clube, atraindo o interesse do Gent, da Bélgica.

A saída e a saudade

 Chegou ao Gent com 17 anos inicialmente para integrar o elenco de base do time. Demorou a se adaptar a um novo país, nova língua e pouco após sua chegada, voltou ao seu país sentindo saudades de casa. Seu pai o convenceu a retornar e vencer os obstáculos, algo que posteriormente o próprio Mido agradeceu, lembrando que esse episódio fez com que ele criasse muito cedo a mentalidade de jogador profissional. Trabalhando duro no time reserva, foi promovido pelo manager Patrick Remy ao time de cima e estreou pela equipe no dia 27 de agosto de 2000, entrando durante uma vitória por 4×1 sobre o Eendracht Aalst. No dia 2 de outubro do mesmo ano fez seu primeiro gol, dando a vitória de sua equipe sobre o Standard Liége por 2×1.

Seu rendimento foi melhorando e sua boa capacidade técnica começou a impressionar. Mido jogou nas duas derrotas do Gent para o Ajax, pela fase classificatória da extinta Copa da Uefa. Os holandeses, no entanto, gostaram do que viram. Mido disputou toda a temporada, anotando 11 gols na Primeira Divisão Belga em 21 atuações, conquistando o prêmio de “Chuteira de Ébano”, uma honraria dada ao melhor jogador africano que disputa o campeonato belga. Conquistou também o prêmio de revelação do campeonato e ajudou sua equipe a terminar em quinto no torneio, conquistando a vaga para a Taça Intertoto. Com apenas 23 partidas e 11 gols, Mido já preparava voos mais altos no continente europeu.

A disputa com Ibra

Se no Gent o menino se tornou um verdadeiro prodígio em um elenco pouco estelar, sua transferência para o Ajax significava um desafio muito maior. Os holandeses o contrataram por valor não revelado, mas seu contrato teria a duração de 5 temporadas, o que mostra o tamanho da aposta que era feita em seu futebol. À época, o Ajax tinha um time repleto de talento, alguns oriundos de sua base e outros contratados. Bogdan Lobont, Christian Chivu, John Heitinga, Maxwell, Tomas Galasek, Andy Van der Meyde, Steven Pienaar, Rafael Van der Vaart e Zlatan Ibrahimovic eram alguns de seus companheiros no plantel, comandados por Ronald Koeman.

Tanto Mido quanto Zlatan, recém chegados de Gent e Malmo, eram concorrentes a uma vaga no ataque, na posição de centroavante do tradicional 433 holandês. O outro concorrente, Shota Arveladze, se lesionou gravemente logo no início da temporada e não jogou mais. Inicialmente, Ibra fez mais sucesso, marcando 4 gols nos primeiros 10 jogos. Mido iniciou mais tímido, anotando apenas dois tentos, ambos na vitória sobre o Sparta Rotterdam por 3×0. No entanto, seu rendimento foi crescendo e o egípcio se tornou titular na parte final da temporada, marcando 11 gols nos últimos 11 jogos do ano e sendo imprescindível para a conquista da Eredivisie e da Copa da Holanda, marcando um dos gols da vitória sobre o Utrecht. Ibrahimovic caiu de rendimento e marcou apenas 2 vezes no período. No fim, Mido marcou 13 vezes na temporada, contra 9 de Zlatan.


A temporada 2002/03 começou promissora, com Mido titular e marcando na vitória por 3×1 sobre o PSV, na conquista de outro título, a Supercopa holandesa. Mas seu temperamento começou a lhe causar problemas, com o jogador tendo vários problemas com o treinador Koeman, que o acusava de falta de vontade em alguns jogos. Em dezembro, afirmou que queria sair do clube, o que não ajudou muito sua popularidade. Após recorrentes discussões com o treinador, multas, relegações para o time reserva e um suposto bate-boca com Ibrahimovic, que se firmava como um dos líderes da equipe e titular absoluto, a paciência do Ajax acabou. Mesmo tendo anotado 10 gols na temporada, o egípcio foi liberado por empréstimo para o Celta de Vigo. Com 56 jogos e 23 gols, era o fim de sua passagem por Amsterdã.

Zoando na Espanha

A passagem pelo Celta foi boa, mas conturbada. Inicialmente a FIFA não queria liberar seu empréstimo, por estar fora da janela de transferências. Entretanto, foi liberada a transação por se tornar um vínculo de curto prazo, por apenas três meses. Mido marcou logo na estreia contra o Athletic Bilbao, vitória por 2×1. Atuou em 8 partidas, marcando 4 gols pelo time de Vigo. Findada a temporada, veio o momento de instabilidade com vários clubes interessados em seu futebol. Dono do seu passe, o Ajax pedia 15 milhões de euros para negociá-lo em definitivo ou queria seu retorno para o clube, possibilidade que o atacante não aceitou.

Virando parça do Drogba

O número de interessados em seu futebol era realmente impressionante. Juventus, Lazio, Newcastle, Roma e Real Betis, para citar os que fizeram propostas oficiais ou foram rejeitados pelo atleta e/ou seu empresário. Após muita briga nas negociações, no dia 12 de julho veio o veredito. O Olympique de Marselha negociou e garantiu os serviços do egípcio pagando ao Ajax 12 milhões de euros. Mais uma vez, contaria com disputa dura para ser titular no time, que tinha Didier Drogba como grande estrela e opções como Steve Marlet, Fernandão e Dmitry Sychev, revelação russa da Copa de 2002.


A estreia foi em agosto de 2003, vitória sobre o Guingamp fora de casa. Na semana seguinte veio o primeiro gol, na vitória por 1×0 sobre o Auxerre. Mido acabou atuando várias vezes pelo lado do campo, visto que a temporada excepcional de Drogba não abria grandes precedentes de disputa e Mido parecia ser um bom coadjuvante para o marfinense. Tendo marcado um gol contra o Real Madrid na Liga dos Campeões, o egípcio mais caro da história do futebol seguia sob os holofotes. Em março de 2004 declarou que pretendia sair do Marseille ao fim da temporada, fato que se concretizaria. Encerrou sua aventura na França com 33 jogos e 9 gols.

Desbravando a Itália

Seu temperamento difícil agora o levou para a Itália. Após mais confusão na janela, Mido forçou a barra para sair do Marseille e foi negociado no final da janela de transferências com a Roma, antiga interessada em seu jogo. Na capital italiana foi um imenso fiasco. Contratado por 6 milhões de euros, disputou 13 partidas sem ir as redes sequer uma vez, sendo titular em apenas duas oportunidades. Sem espaço e longe de contar com a simpatia do treinador, Mido queria mudar novamente de clube. Passou a ser agenciado por Mino Raiola, famoso no futebol italiano e com trânsito no futebol mundial. Após negociações com Valencia, Manchester City e Southampton, foi parar por empréstimo no nortede Londres.


Finalmente, Spurs

Sua contratação foi repleta de desconfiança em uma temporada que o Tottenham não ia bem e passava longe das primeiras colocações. Carecendo de um bom centroavante alto para ser alternativa à Kanouté, os Spurs levaram o egípcio por um empréstimo de 18 meses. Sua estreia foi apoteótica, titular contra o Portsmouth em White Hart Lane. Mido marcou duas vezes, uma em cada tempo, sendo vital no triunfo por 3×1. Disputaria mais 10 jogos na temporada, marcando apenas uma vez contra o Nottingham Forest pela FA Cup.


O time não se classificou para competições europeias, mas Mido parecia satisfeito no Tottenham. Começou a temporada 2005/06 titular ao lado de Defoe, posto que logo perderia para Robbie Keane. Kanouté foi negociado, Grzegorz Rasiak contratado (assunto para outra coluna), e Mido começou a labutar uma vaga na equipe. Na segunda rodada marcou contra o Middlesbrough, repetindo a dose contra Charlton e Everton. Atuando regularmente, oscilava com Keane e Defoe quem era a dupla de ataque a cada jogo e os resultados estavam aparecendo. Seguiu até o fim da temporada ajudando o clube com gols decisivos e ajudou os Spurs a brigarem até a última rodada pela vaga na Liga dos Campeões. Veio apenas a Liga Europa, mas o desempenho de 11 gols em 27 partidas animou o treinador Martin Jol.


Assina o cheque, Levy!

Tendo conquistado a torcida por seu perfil de luta, seus gols e o seu estilo “diferenciado” Mido tinha uma data de validade no Tottenham, chegando ao fim o seu empréstimo. Novamente era alvo de vários clubes, visto que os italianos pareciam pouco tentados a mantê-lo, assim como não aceitavam o reempréstimo. Ao final da temporada foi anunciado que ele voltaria à Roma e que o Tottenham não iria comprá-lo, por causa do investimento recente em Berbatov e das já consagradas opções de Defoe e Keane.


Passadas as férias, todo mundo mudou de ideia. Voltou a Roma e chegou a atuar na Supercopa nacional, na derrota de sua equipe para a Inter, por 4×3. Mas se em maio Mido não seria contratado, no final de agosto o Tottenham anunciou o seu retorno em definitivo, tendo pago quase 7 milhões de euros pelo atacante. Logo na sua chegada o atleta não escondia a satisfação e afirmou que “sempre soube em seu coração que iria voltar”. No entanto, seu rendimento não foi o mesmo, tendo entrado em atrito com o treinador Martin Jol e até mesmo com o ex-jogador do Tottenham Sol Campbell, vulgo Judas. Com menos chances de jogo, os gols rarearam e a insatisfação cresceu. Durante toda a temporada foram 23 partidas e 5 gols, um deles contra o Arsenal no Emirates Stadium, pela semifinal da Copa da Liga. No entanto, os Spurs seriam eliminados pelo seu maior rival, com a derrota por 3×1. Após 61 jogos e 19 tentos assinalados, Mido encerrou sua trajetória no Tottenham, sendo negociado com o Middlesbrough por 6 milhões de euros.

Boro, lesões, empréstimos

Nada deu certo para Mido a partir de então. No Middlesbrough, uma série de lesões o impediu de jogar com regularidade. Em seus dois primeiros jogos pelo clube, marcou. Ficou os próximos 15 da temporada em branco, encerrando 2007/08 com 17 atuações e um par de tentos. Recuperado, começou 2008/09 a todo vapor, marcando contra os Spurs na vitória por 2×1, na abertura da temporada, apenas 3 minutos após sua entrada em campo. Marcou de novo contra Liverpool, Yeovil e Portsmouth, parecendo de volta à grande fase. Mas as lesões, expulsões (chutou o rosto do então lateral do Arsenal Clichy em uma partida, o que convenhamos, não é assim tão ruim) e até uma cirurgia de hérnia foram minando a sua credibilidade no Boro.


Adepto do islamismo, Mido teve problemas algumas vezes durante seu período na Premier League, especialmente com torcedores do Newcastle, que algumas vezes proferiram cânticos racistas ao jogador e sua religião. Surpreendentemente contrário as investigações da FA, Mido alegou que não via efeito prático na medida, visto que ninguém seria punido. Coincidência ou não, dois torcedores foram identificados e indiciados na corte de Teeside. Em janeiro de 2009, foi emprestado ao Wigan. Nos Latics, marcou de pênalti em sua estreia, contra o Liverpool. Marcaria de novo na derrota para o Arsenal e só. 12 jogos, 2 gols e devolução ao Middlesbrough.

Eu tô voltando pra casa…

O Middlesbrough foi rebaixado para a Championship e Mido voltou a fazer das suas. Optou por não voltar ao clube no início da pré-temporada, ficando 15 dias sem dar notícias. Após ser multado pela direção do clube em seus vencimentos, reapareceu para os treinamentos. Sem clima, foi emprestado por um ano para o Zamalek, seu clube do início de carreira, mais para o clube se livrar da presença do que por acreditarem em seu retorno aos bons dias. Mesmo no Egito, Mido não jogou nada. 15 atuações, um único gol e o contrato de empréstimo rescindido no meio da temporada. O West Ham apostou em seu futebol, mas com ressalvas. Com um inacreditável contrato de apenas mil libras por semana, o jogador voltou à Premier League. Em 9 jogos não balançou as redes e ainda perdeu um pênalti.

O retorno ao Ajax

Ainda vinculado ao Boro, o Ajax, comandado pelo seu antigo treinador no Tottenham Martin Jol, se interessou por Mido e queria fechar sua transferência livre. Acabou indo por empréstimo de volta para os holandeses, onde havia rendido bem oito anos antes. Mesmo tendo poucas oportunidades na equipe, voltou a render relativamente bem, marcando 3 gols em 6 partidas. Foi titular em apenas um jogo, contra o Ajax, em seu último gol em território europeu. Martin Jol deixou o clube em dezembro e Frank de Boer, novo treinador, não contava com o egípcio em seus planos. Com isso Mido pediu e teve o vínculo rescindido em janeiro de 2011, recebendo posteriormente a medalha de campeão da Eredivisie 2010/11.


Teve ainda um retorno mal-sucedido ao Zamalek em 2011/12, onde jogou apenas 4 vezes, marcando 3 gols. Seu último clube foi o Barnsley, da Championship. Mido jogou por espetaculares 27 minutos no clube, sendo suplente em uma derrota para o Huddersfield por 1×0. Foi o fechar de cortinas para sua carreira de jogador, sendo anunciada sua retirada com 30 anos, em junho de 2013, após 329 jogos e 106 gols.

Treinador, selecionável, diretor de futebol

A carreira de Mido pela Seleção de seu país foi obviamente polêmica, com o jogador não se colocando a disposição do selecionado por algumas ocasiões, levantando a ira dos treinadores e dirigentes. Marco Tardelli foi um treinador com quem teve problemas em 2004-05, só se resolvendo quando o treinador foi demitido e Mido fez um pedido público de desculpas. Em outra ocasião, não reagiu bem a uma substituição e por pouco não brigou na mão com o treinador Hassan Shehata. No geral, contou com 51 internacionalizações, 20 gols e um título, a Copa Africana de Nações em 2006.


Após pendurar as chuteiras, foi comentarista da Premier League no canal Al Jazeera. Mostrou-se interessado em se tornar treinador, cargo que ocupou pela primeira vez em janeiro de 2014, no Zamalek, ainda aos 30 anos de idade. Comandou a equipe ao título da Copa do Egito na temporada e levou seu time ao terceiro posto na liga nacional. Foi substituído por Hossam Hassan no cargo de treinador, mas ocupa hoje a funçao de diretor das categorias de base do clube.

Jogador representante do lado B do futebol, aquele cara que não marcou época por títulos, mas teve participação importante em um momento de transição dos Spurs. Se jogasse hoje, seguramente faria melhor que Soldado e Adebayor, nossos ‘matadores’. Quem quiser saber mais sobre a carreira do jogador, pode dar uma olhada nesse vídeo aqui, uma compilação bem legal de sua trajetória. Agradecimentos e essa pequena homenagem a Ahmed Hossam Mido pelos serviços prestados à camisa dos Spurs.

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Emerson Araujo

Jornalista, aficionado por futebol, torcedor do Cruzeiro (de nascença) e do Tottenham (desde 2005). Orgulhosamente, um dos fundadores da Tottenham Brasil e colaborador do Guerreiro dos Gramados, site voltado a cruzeirenses. Odeia Guardiolismos e acredita que atacante tem que fazer gol. Acredita que todo dia é um 7 a 1 diferente e não há nada de mau nisso. Exímio treinador no Football Manager.

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