TB Perfis – Danny Blanchflower

Provavelmente você já viu ou ouviu a frase ‘The game is about glory’. Se é torcedor do Tottenham, já deve tê-la percebido entre as arquibancadas de White Hart Lane ou ainda nos túneis do estádio, no caminho que os atletas fazem do vestiário até o gramado. Talvez não saiba quem foi o homem que cunhou essas palavras, imortalizadas pelo clube e que se tornaram um verdadeiro lema dos Spurs. O norte-irlandês Danny Blanchflower, capitão dos Spurs em seu mais glorioso período, no início da década de 1960, e eleito pelo The Times como o maior jogador da história do Tottenham, é o homenageado de hoje, no sexto episódio da série Tottenham Brasil – Perfis.

Nas Forças Armadas

Robert Dennis Blanchflower nasceu no dia 10 de fevereiro de 1926 em Belfast, na Irlanda do Norte. Apelidado de Danny, seguiu uma hereditariedade improvável no mundo da bola, visto que sua mãe, Selina Blanchflower, havia sido jogadora de futebol quando mais jovem. Danny foi o filho mais velho da família, que teve um outro jogador profissional contemporâneo, Jackie, este que atuava pelo Manchester United e encerrou sua carreira em 1958, por sequelas decorrentes da queda do avião dos Red Devils em Munique, naquele ano.

Sua trajetória até iniciar no futebol é bem interessante. Danny estudou na escola pública Ravenscroft, sendo depois bolsista na Belfast College of Technology. Ainda muito jovem, se tornou um eletricista aprendiz trabalhando na fábrica de cigarros de Gallagher, em sua cidade natal. Participou da junta de precaução contra bombardeios aéreos, tendo posteriormente mentido sua idade para ingressar na Real Força Aérea Britânica. Fazendo parte da corporação, teve a oportunidade de estudar na St Andrews University e realizar uma de suas primeiras viagens internacionais, para um curso preparatório no Canadá.

 Primeiros chutes

Em 1946, já no período pós-guerra, Danny retornou a seu país e aí foi iniciar sua carreira como jogador. Ele já havia jogado no time da faculdade St Andrews e identificou que tinha talento para seguir a profissão. Um de seus primeiros treinadores, já no time universitário do Colégio Dundee, foi Jack Quaskley, ex-comandante de Celtic, Dundee United e da Seleção Escocesa. Em 1946, sua carreira teve início ao assinar um contrato profissional com o Glentoran, do seu país.

O futebol norte-irlandês nunca foi exatamente um sucesso mundial, mas o talento do jovem Danny se espalhava pelo Reino Unido. Em 1949, quando ele começou a fazer parte do elenco da Seleção Nacional, veio também a primeira negociação. Por 6.000 libras, deixou o Glentoran para se juntar ao inglês Barnsley. Nos Tykes, foram 68 partidas e 2 gols marcados, em duas temporadas.

Ganhando a ilha

Já mais experiente e cada vez mais capaz de dominar o meio campo sempre com bons passes e senso de posicionamento, o Aston Villa cresceu o olho e levou o jovem Blanchflower para Birmingham. Pela taxa irrisória para os padrões atuais de 15 mil libras, seu passe foi adquirido pelos Villans onde ficou por três temporadas, atuando 155 vezes e anotando 10 gols. Sua afirmação como um grande jogador fez com que o Tottenham se interessasse e adquirisse os direitos em 1954, por 30 mil libras. E assim iniciava-se a história de um dos maiores jogadores da história do clube do norte de Londres.

 Danny is a Yiddo

Logo em sua chegada, Blanchflower já se firmou na equipe como titular, feito que manteria pelas temporadas seguintes, tornando-se o capitão do escrete. Coincidência ou não, era a última temporada de um certo Bill Nicholson como jogador do Tottenham. Fato é que esse processo de ‘sucessão’ de ídolos daria muitos frutos ao clube. Nas temporadas seguintes, chegariam Bobby Smith, Cliff Jones e Les Alen, importantes jogadores nos sucessos que viriam. Em 1957-58, Nicholson se tornaria o treinador do clube e sua liderança mudaria os rumos dos Spurs para sempre.

Fazendo história

O Tottenham não ganhava o campeonato há dez anos. Isso é muita coisa, mas os garotos de Bill Nicholson se mostravam cada vez mais entrosados e talentosos. Eis que se inicia a temporada 1960/61 e o Tottenham ganha os 11 primeiros jogos na liga, marcando 36 gols e passando como um trator pelos adversários. Era um choque ver aquele time jogando um futebol vistoso e na décima segunda rodada, vem um empate contra o Manchester City. Mais quatro vitórias e a perda da invencibilidade, contra o Sheffield Wednesday. Mas os garotos não se abateram, muito pelo contrário. Uma nova sequência de nove jogos invictos fez os Spurs dispararem de vez na ponta e ninguém teve pernas para buscar os campeões.

Paralelamente, o Tottenham disputava a FA Cup e realizou um progresso perfeito até a decisão. Vitórias sobre Charlton, Crewe e Aston Villa, até o enfrentamento contra o Sunderland. Após um empate por 1×1 na casa do rival, um 5×0 em White Hart Lane mandou o time para a semifinal, onde enfrentaria o Burnley. 3×0 no lombo dos adversários e vaga na decisão contra o Leicester, do lendário goleiro Gordon Banks. Com gols de Bobby Smith e Terry Dyson, ambos no segundo tempo, o capitão Blanchflower e seus companheiros ergueram também a Taça, realizando o primeiro double no futebol inglês no século 20.

Os desafios não paravam

A temporada seguinte se desenhava muito dura, pela necessidade de defender o título nas maiores competições nacionais atreladas à disputa da Liga dos Campeões. Danny passou um curto período emprestado ao Toronto, do Canadá, em 1961, mas atuou regularmente pelo clube. Já na abertura da temporada, o desafio era a Community Shield, competição tradicional que vigora até os dias atuais. A diferença, é que hoje a competição é disputada entre o campeão da FA Cup e o campeão da Premier League. Com o Tottenham tendo unificado as conquistas nacionais, montou-se um combinado da Liga contra os atuais campeões.

Espanta-se quem pensa que esse combinado era fraco. Contando com nomes como Jimmy Armfield, Bobby Charlton, Jimmy e Bobby Robson, o selecionado fez jogo duro, mas sucumbiu aos meninos de Bill Nich. 3×2 no placar, com dois gols de Les Allen e um de Bobby Smith para os Spurs, enquanto John Byrne e Johnny Haynes descontaram.

 O sonho europeu em White Hart Lane

 Para a disputa da principal competição do continente (nesta época, apenas o campeão nacional se qualificava para a Liga dos Campeões), chegou ao Tottenham um certo Jimmy Greaves, revelado no Chelsea e vindo de passagem pelo Milan. Na primeira eliminatória do torneio, os Spurs enfrentariam o Górnik Zabrze, da Polônia. Após a derrota por 4×2 na casa do rival, um acachapante 8×1 em casa. Blanchflower marcou, de pênalti, abrindo o caminho para a goleada.

Nos estágios seguintes, sempre com Blanchflower a capitanear, o Tottenham superou Feyenoord (Holanda), Dukla Praha (Rep. Tcheca) e enfrentaria o Benfica, nas semifinais. O time português, liderado por Eusébio, fez 3×1 no Estádio da Luz, gols de Antônio Simões e José Augusto (2). Bobby Smith marcou para os Yids. No jogo de volta, em White Hart Lane, José Águas fez para o Benfica, tornando a classificação quase impossível. Bobby Smith empatou e Blanchflower, de pênalti, decretaram a virada. Mas faltou um gol para forçar o tempo extra, e o sonho de conquista europeia acabou na semifinal.

Enchendo a estante

Se na Europa nem tudo deu certo, em território local as coisas correram bem. A equipe não conseguiu reeditar a grande temporada do ano anterior, terminando a Liga em terceiro lugar. Mas na FA Cup, voltou a brilhar e realizou uma campanha excepcional. Após uma eletrizante eliminatória contra o Birmingham, empate por 3×3 fora e vitória por 4×2 no jogo desempate, em casa, Plymouth, West Brom e Aston Villa não apresentaram resistência. O adversário na semifinal, Manchester United, penou com um incontestável 3×1.

Na decisão, o Burnley, ex-clube de Danny. Jimmy Greaves abriu o marcador logo aos 3 minutos, placar que se manteve no primeiro tempo. No início da etapa complementar, Jimmy Robson empata. O decisivo Bobby Smith volta a colocar os Spurs à frente, na saída de bola. E no fim do jogo, para sacramentar a taça, pênalti. Blanchflower na bola, 3×1 e mais um espaço preenchido na estante de troféus.

A glória continental

1962/63 era um ano mais ameno e Blanchflower já se preparava para pendurar as chuteiras. Título da Community Shield já no primeiro jogo, com goleada de 5×1 sobre o Ipswich. Com uma intensa luta pelo título até o final, o Tottenham ficou com o vice-campeonato inglês, tendo o Everton ficado com o troféu. Na FA Cup, o objetivo de tricampeonato esteve longe, tendo o Tottenham sido eliminado antes das oitavas de final, sofrendo um sonoro 3×0 do Burnley, em casa. Foi uma espécie de vingança pela decisão da temporada anterior.

A salvação da lavoura foi a Taça das Taças, torneio semelhante à Liga Europa que temos hoje. O Tottenham passou pelo Glasgow Rangers (Escócia) com duas vitórias, 5×2 e 3×2. Na sequência, pegou o Slovan Bratislava (Eslováquia) e após perder o jogo de ida por 2×0, aplicou 6×0 em casa. A semifinal foi contra o OFK Belgrado (Iugoslávia, atual Sérvia), onde mais duas vitórias por 2×1 e 3×1 colocaram os Spurs na final. O adversário seria o Atlético de Madrid e o jogo foi realizado no estádio do Feyenoord, o De Kuip. Com dois de Jimmy Greaves, um de John White e mais dois de Terry Dyson, o Tottenham meteu 5×1 nos espanhois e se tornou o primeiro time londrino campeão de uma competição europeia. Nem preciso lembrar quem era o capitão, né?

O medo do fim

Após participar do mais glorioso período da história do clube, Danny Blanchflower se aposentou oficialmente na temporada 1963/64. Foram seis títulos conquistados pelos Spurs, duas FA Cup’s, duas Supercopas (Community Shield), um Campeonato Inglês e uma edição da Taça das Taças. Atuou 384 vezes pelo Tottenham, marcando 6 gols no período.

Após sua aposentadoria, se tornou jornalista no periódico Sunday Express e participou como comentarista de futebol por alguns anos. Retornou ao futebol como treinador quinze anos depois, comandando o Chelsea e a Seleção da Irlanda do Norte entre 1978 e 1980, sem grande sucesso. Pelo seu país, atuou 56 vezes, anotando 2 gols. E recebeu individualmente o prêmio de melhor jogador da temporada inglesa em duas oportunidades, 1958 e 1961.

Abaixo, um selo comemorativo distribuído pelo serviço inglês de mailing em referência aos maiores jogadores da história do futebol no país.

Para a posteridade

‘The game is about glory’ se tornou uma frase não apenas de Danny, mas que identifica o Tottenham. O agradecimento infinito ao nosso eterno capitão, que faleceu no dia 9 de dezembro de 1993, com 67 anos, por problemas decorrentes de uma pneumonia.

Share on FacebookTweet about this on TwitterShare on Google+Email this to someonePrint this pagePin on Pinterest
The following two tabs change content below.

Emerson Araujo

Jornalista, aficionado por futebol, torcedor do Cruzeiro (de nascença) e do Tottenham (desde 2005). Orgulhosamente, um dos fundadores da Tottenham Brasil e colaborador do Guerreiro dos Gramados, site voltado a cruzeirenses. Odeia Guardiolismos e acredita que atacante tem que fazer gol. Acredita que todo dia é um 7 a 1 diferente e não há nada de mau nisso. Exímio treinador no Football Manager.

Latest posts by Emerson Araujo (see all)

  • fernando c.

    este time do double era uma constelacai. A comecar pela estrela maior, treinador do time. os maiores meio campistas do clube e dois artilheiros maximos q so perdem pro jimmy greaves. Que timaço!