TB Perfis – Ledley King

O perfilado dessa semana é – sem trocadilho – o rei de White Hart Lane. Ledley King, o zagueiro inglês que dedicou toda a sua carreira ao clube, jogando apenas com as camisas de Tottenham e Seleção Inglesa durante sua trajetória no futebol. Convivendo com recorrentes problemas no joelho, King não treinava nos seus últimos anos de futebol, apenas fazendo fisioterapia e tratamentos para recuperar sua condição física para o próximo jogo. Sem cartilagem nos joelhos devido a uma série de intervenções cirúrgicas, o eterno camisa 26 travou uma batalha impossível se ser vencida, mas triunfou. Prova disso foi sua convocação para a Copa do Mundo de 2010, na África do Sul, após capitanear os Spurs na conquista da vaga na Liga dos Campeões 2010/11. E a carreira do maior ídolo recente do clube, você confere agora no quinto episódio da série Tottenham Brasil – Perfis.

 

Aprendendo cedo

Ledley Brenton King nasceu em Londres, no dia 12 de outubro de 1980. Iniciou a carreira no futebol ainda criança, por times escolares como o Senrab FC, Tower Hamlets e posteriormente o John Roche RC Escolar. Em 1996, chegou ao Tottenham para um período de testes, sendo aprovado e integrando a categoria de base do clube. Destacando-se por tua técnica, a ponto de ser comparado ao lendário Bobby Moore, não tardou a receber uma oportunidade na equipe de cima. No dia 30/04/1999, ainda com 18 anos de idade, estreou pelo Tottenham.

Engana-se quem pensa que tudo começou bem para o futuro capitão. O seu desastroso debute foi contra o Liverpool, em Anfield. O Tottenham vencia por 2×0, com um gols de Steffen Iversen e um gol contra de Jamie Carragher. O lateral Mauricio Taricco foi expulso e na tentativa de segurar o resultado, King foi colocado por George Graham na vaga de Stephen Clemence no intervalo. A estratégia não deu muito certo, e os Reds viraram o jogo com gols de Jamie Redknapp (filho do velho Harry, e que foi nosso jogador), Paul Ince e Steven McManaman. Foi seu único jogo na temporada.

O polivalente

Em 1999/2000, King já fazia parte do elenco de cima, mas as oportunidades eram reduzidas. A defesa do Tottenham era composta por Sol Campbell e Chris Perry, contando com Ramon Vega e Anthony Gardner como opções prioritárias para o manager. Foram apenas três aparições no time de cima e nas duas vezes que jogou os 90 minutos, o Tottenham venceu Derby County e Sunderland. A outra partida foi uma derrota para o Manchester United, onde ele jogou menos que 10 minutos.

Na época 2000/2001, passou a ser um jogador regular na equipe jogando no meio-campo, entrando em campo 23 vezes e anotando 2 gols. Seu primeiro gol pelo clube foi marcado no empate contra o Bradford City por 3×3, em dezembro de 2000. Inclusive, este é o gol mais rápido da história da Premier League, marcado com apenas 9,9 segundos de jogo (vídeo abaixo). King se afirmava como um bom volante, tendo realizado ótimas partidas e se apresentando como um volante de excelente marcação e que sabia sair para o jogo. Mesmo inexperiente, era uma grande aposta do clube.

Substituindo Judas

Porém uma traição acabaria mudando as coisas. O então líder da defesa Sol Campbell, deixou o Tottenham para assinar com o grande rival Arsenal no fim do contrato. Os detalhes estão para outra discussão. O relevante é que os Spurs ficaram então órfãos de um grande zagueiro e foram ao mercado buscar Goran Bunjevcevic, experiente defensor do Estrela Vermelha e Dean Richards, valorizadíssimo zagueiro inglês do Southampton.

O que ninguém contava é que o sérvio se lesionaria logo em sua quinta partida pelo clube, passando praticamente toda a temporada lesionado e atuando apenas em 8 oportunidades. Richards também passou por alguns problemas físicos, mas jogou mais. King, no entanto, se tornou absoluto. Seja no meio-campo ou na zaga, era escolha certa na equipe titular, participando de 42 partidas e marcando um gol em uma temporada de altos e baixos. No clássico contra o Arsenal, em abril de 2002, sofreu uma de suas primeiras lesões graves e só retornaria aos gramados no meio da temporada seguinte.

A afirmação

Em 2003/04 conseguiu voltar a jogar regularmente e agora consolidado como zagueiro. Fazendo dupla com Perry, Gardner ou Richards, se destacava tecnicamente por sua qualidade nos desarmes, mas não conseguia salvar um sistema defensivo pra lá de deficitário. Seu grande sucesso veio a partir da chegada do marroquino Noureddyne Naybet em 2004, zagueiro experiente e que montou pela primeira vez em anos, uma defesa sólida ao lado de King. Talvez por isso a equipe tenha realizado uma boa campanha na liga e quase se classificado para a Liga dos Campeões, terminando na quinta posição.

Vídeos como esse desarme de King sobre Robben, num clássico Tottenham x Chelsea de 2005, mostram o que King era capaz de fazer. Fisicamente, um defensor monstroso, rápido, forte, que reunia todas as características para ser um dos melhores zagueiros do mundo, fato que conseguiu ser por algum período. Pela Seleção Inglesa, disputou a Eurocopa em 2004 e sempre que fisicamente disponível, era lembrado pelos treinadores como parte do elenco, mesmo contando com concorrentes como John Terry, Jamie Carragher, Sol Campbell e Rio Ferdinand.

Cadê você, cartilagem?

A partir de 2006, os problemas no joelho de King se intensificaram e ele não conseguia mais jogar regularmente. Nas temporadas seguintes, nunca entrou mais de 30 vezes em campo na temporada e a equipe médica revelou que o joelho do atleta não tinha mais cartilagem. Ou seja, o movimento de correr e andar do atleta revelava um atrito ósseo, o que poderia prejudicar não só a carreira do jogador, mas até mesmo sua capacidade em andar normalmente. King e os preparadores desenvolveram então um método alternativo para que ele pudesse ser aproveitado. King não treinava mais, apenas fazia atividades na academia ou regenerativos para aliviar-lhe o corpo.

Harry Redknapp, treinador do Tottenham e consequentemente de King nos últimos anos de sua carreira, sentenciou em 2009: “Não há nenhuma cura. Não há cartilagem, nada a operar. É só osso no osso. Então é só uma questão de gestão. Ele incha depois dos jogos e normalmente leva sete dias para se recuperar, mas tendo jogado na segunda-feira à noite que ele teve menos tempo do que o habitual. Ele raramente treina, ele praticamente só vai para a academia para manter-se alheio ao crescimento. Mas não execução ou qualquer coisa assim. Mas mesmo que ele só jogue 20 jogos por temporada, vale a pena o ter, porque ele é tão bom que temos uma chance muito maior de ganhar”.

O rei de White Hart Lane

Na temporada 2007/08, King entrou em campo apenas 10 vezes. Mas nos jogos mais importantes da temporada, lá estava ele. Jogou os 90 minutos da épica goleada de 5×1 aplicada sobre o Arsenal e foi impecável por todos os 120 minutos da final da Copa da Liga contra o Chelsea. Ergueu, ao lado de Robbie Keane, o título da competição, seu único título conquistado pelo clube (tem o título da mesma Copa da Liga em 1998/99, por fazer parte do elenco, mas não esteve em campo no torneio).

Na temporada 2009/10, que nos levou à Liga dos Campeões, lá estava ele nas decisivas vitórias contra o Arsenal e o Manchester City, que renderam diretamente a vaga na principal competição de clubes do mundo. Pouco desfrutou da disputa da Champions League, atuando apenas em 3 partidas da campanha, nas vitórias por 4×0 sobre o Young Boys e 4×1 sobre o Twente, além do empate por 2×2 contra o Werder Bremen.

O triste anúncio

Fisicamente parecia cada vez mais difícil para King se manter em campo e podemos dizer que em momento algum seu nível técnico desabou. Não podemos endeusá-lo a ponto de dizer que ele nunca falhava, mas mesmo nas suas precárias condições naturais, mantinha uma concentração e um posicionamento invejáveis. Seu estilo de zagueiro físico e rápido mudou um pouco, se tornando um líder de fato e direito.

Em 2011/12 não pôde ajudar a equipe a voltar a Liga dos Campeões, ficando a apenas um ponto da conquista da vaga. King acusava cada vez mais os problemas no joelho e decidiu encerrar sua carreira ao fim da temporada. Seu último jogo foi no dia 21/04/2012, uma derrota por 1×0 para o QPR, gol de Taarabt. Acabaria sendo relacionado ainda para as vitórias contra Bolton e Blackburn, mas sem adentrar o gramado.

Embaixador

Após 268 jogos, 10 gols e apenas 8 cartões amarelos, King pendurou as chuteiras de vez, tornando-se um embaixador do clube. Ledley teve sim muitas propostas para deixar o Tottenham durante a carreira, preferindo ficar no clube durante os momentos mais gloriosos e mais difíceis da instituição. Admirado por seus companheiros e até mesmo por adversários, como Thierry Henry, que afirmou em dado momento que King foi o melhor com quem jogou contra e um dos poucos a conseguir pará-lo de forma limpa, o jogador recebeu um jogo despedida, realizado em 2014, em White Hart Lane. Nosso eterno agradecimento a Ledley King pelos inúmeros serviços prestados. Vida longa ao Rei!

Share on FacebookTweet about this on TwitterShare on Google+Email this to someonePrint this pagePin on Pinterest
The following two tabs change content below.

Emerson Araujo

Jornalista, aficionado por futebol, torcedor do Cruzeiro (de nascença) e do Tottenham (desde 2005). Orgulhosamente, um dos fundadores da Tottenham Brasil e colaborador do Guerreiro dos Gramados, site voltado a cruzeirenses. Odeia Guardiolismos e acredita que atacante tem que fazer gol. Acredita que todo dia é um 7 a 1 diferente e não há nada de mau nisso. Exímio treinador no Football Manager.

Latest posts by Emerson Araujo (see all)

  • Alex

    Um dos zagueiros mais completo que já vi na vida.
    E era difícil de errar… Sempre constante.
    O enredo trágico com os problemas nos joelhos só aumentaram mais ainda a admiração do torcedor pelo jogador guerreiro que sempre foi.

    O futebol precisa de mais casos como esses… E que novos “Ledley King’s” apareçam, porque, como diz um dos nossos lemas: “The game is about glory!”