Entrevista de Mauricio Pochettino ao “El País”

Mauricio Pochettino, treinador do Tottenham, deu uma entrevista muito esclarecedora quanto seus pensamentos sobre o que é viver e trabalhar como um técnico de futebol na Inglaterra. Esta é uma tradução livre, feita da tradução para o inglês, da entrevista, por Andrew Gaffney.

>>LEIA A TRADUÇÃO DE ANDREW GAFFNEY.

Pochettino não conseguiu fazer a equipe render como gostaria

Pochettino: “Na Inglaterra, eles subestimam os jovem jogadores ingleses.”.

Mauricio Pochettino já se vê sobre pressão após um início longe do ideal. Embora o Tottenham esteja próximo da classificação para a fase de mata-mata da UEFA Europa League, o desempenho na liga nacional tem sido inconstante, para dizer o mínimo. Seu estilo futebolístico é conhecido pela alta marcação-pressão no adversário e posse de bola, apesar de isso ter sido pouco visto nos lados de White Hart Lane. Contudo, ele deu uma entrevista ao jornal, El País, ontem, 9, após a derrota para o Stoke City, dizendo: “Isto é futebol. Eu amo isso.”.

Entrevistador(E): “Por que você é tão bem quisto na Premier League?”

Pochettino(P): É a primeira vez que ouço isso! Ah, não sei. Eu imagino que seja pela representatividade de novos ares no Southampton. Não apenas porque jogávamos bem, mas porque trouxemos um estilo e táticas diferentes (à liga). Além disso, pelo talento de nossos jogadores ingleses.”.

E: “Eles costumam subvalorizar a qualidade dos jogadores ingleses (na Inglaterra)?”

P: “Com toda certeza. Nós acreditamos mais do que eles mesmos. É uma vergonha, assim como aconteceu na Espanha há 20 anos. Quando eu cheguei no Espanyol, eles me valorizavam mais, porque eu era um estrangeiro. E aqui, eles subestimam os jogadores ingleses. Você apenas precisa confiar neles e mostrar como devem jogar.”.

E: “Você acha que fazer mudanças tão radicais possa irritar os torcedores?”

P: “Não. Hoje em dia, com a quantidade de informação amplamente disponível, e porque o futebol é global, todos acreditam que se deva praticar aquilo que se sente necessário, ou o que se sente de acordo com a cultura deles. Mas há diferentes treinadores, como Brendan Rodgers, que oferecem um outro tipo de futebol. Aqui (na Inglaterra), você jogar de várias maneiras e sistemas. Embora ainda haja elementos intrínsecos deste futebol (bola longa pros wingers, para que eles possam cruzar para alguém na área). Jogadores ingleses também são capazes de aprender a jogar com qualquer estilo que lhes seja mostrado.”.

E: “A Premier League seria de um sabor refinado?”

P: “É verdade que há várias academias que treinam seus jovens para jogar desde trás, então alguns aspectos que estavam impregnados foram deixados de lado. Mas vocês não pode ir contra a cultura deles. Dentre outras coisas, o futebol inglês tem uma paixão inigualável e acima de todo o resto. Um escanteio ou arremesso lateral é comemorado como um gol e isso lhe empurra pra frente. Você não pode perder isso. Tão pouco a honestidade dentro de um jogo que eles tem.”.

E: “Mas quando você era jogador, dizia preferir os jogadores ‘inteligentes’ (que simulam faltas e pênaltis).”

P: “Bem, eu mudei meu modo de pensar. Futebol é para pessoas inteligentes, mas sem encenação. No fim, você joga para superar seu adversário. Mas precisamos parar de trapacear. Prefiro jogadores ‘espertos'”.

E: “E por que o futebol inglês é tão cheio de paixão?”

P: “Pela cultura, por aquilo que herdaram de suas famílias e porque eles mal podem esperar para ver seu time jogar no domingo. É a oportunidade de ver seu time jogar. Não é igual na Espanha, onde você pode ver seu time treinar durante todos os dias da semana.”.

E: “Dentro da cultura inglesa está o hábito de beber cerveja. Tem sido difícil mudar os hábitos de alguns de seus jogadores?”

P: “É verdade que eles gostam de tomar uma cerveja, mas desde que estou aqui, não tive problemas. Eles são muito profissionais. E eu também não sou policial (não gosto de investigam o que fazem). Eles tem suas noitadas, mas sempre respeitam e se mostram responsáveis pelos contratos assinados com o clube.”.

E: “Você não é um policial, mas seria um sargento?”

P: “Espere um pouco. Viemos de um lugar do qual amávamos treinar. Tínhamos duas sessões, o que não é comum aqui. A mentalidade não é essa. Temos que tratá-los corretamente. Temos que aumentar o nível de “sofrimento”. Jogadores ingleses são muito intensos e precisamos aumentar sua resistência e sofrimento (sem dor, sem ganho), para traduzir isso em agressividade no jogo. Estamos mudando isso.”.

E: “A frase ‘sofra no treino, que você não sofrerá no jogo’ é verdadeira?”

P: “Sim, porque os jogadores entendem que fazendo isso irão aproveitar melhor o jogo.”.

E: “Mas eles estão assustados (com os métodos de treino mais puxados)?”

P: “Quando estávamos no Southampton, eles (a mídia) falava sobre o quanto as sessões de treinamento eram duras. Mas disse a eles que nós não éramos loucos. Você precisa, também, perceber que, às vezes, a vida é muito confortável para o jogador de futebol. Disse a eles que, como ex-jogador, e porque eu acreditava nos meus ideais, que é preciso trabalhar arduamente. Mas espero que eles não estejam assustados. Na verdade, deveria haver o respeito (aos métodos), o que é o mais difícil de se conseguir. Acho que temos esse respeito, pois os jogadores sabiam que cresceriam com a gente. É nosso dever conseguir melhores contratos, crescer, para que no final sejamos felizes. E para eles, todos os métodos (com objetivos) são bons. Sou sempre diferente. Às vezes, contudo, sou distante, outras vezes, cuidadoso com os jogadores.  O grupo deveria saber, claramente, como se comportar. Você não pode se tornar, sempre, amigo de um jogador, essa é uma palavra muito forte. Mas os jogadores dão tudo de si. E é isso que nós queremos, porque você não pode pedir mais do que o que eles são capazes de fornecer.”. 

E: “E entre os jogadores, há alguma hierarquia de quem lidera o vestiário (no futebol inglês)?”

P: “Talvez há 20 anos, quando o veterano da equipe recebia todo o poder através do treinador e da diretoria. Os jovens sofriam por causa disso. Agora tudo é mais normal. Mas é bom seguir algumas tradições. Gosto de ver jogadores sub-21 como Shaw, ou Lallana, limpando as chuteiras dos jogadores da equipe principal após treinar com eles. Esses momentos marcam um jogador. É a humildade, o respeito, a ambição que fará com que algum dia alguém limpe minhas chuteiras. Na Espanha, por exemplo, você fala para um jogador de 17 anos fazer isto e ele te responde: ‘Eu? Mas eu sou um profissional e sou patrocinado por várias marcas e tenho um empresário.”.

E: “Outra tradição, na Inglaterra, é a de se encontrar com o treinador rival após um jogo. O que você acha disso?”

P: “Quando você perde é difícil. Honestamente, decido não ir, na maioria das vezes. Sempre uso a desculpa de que tenho de dar entrevistas ou uma conferência de imprensa. Embora, se estou com um amigo como Roberto Martínez, ou Mourinho, eu vou. Mas não com aqueles que não se importam de verdade se eu vou ou não. Não sou muito amigável após os jogos. Nem mesmo quando ganhamos.”.

E: “Qual é a meta para o Tottenham?”

P: “Ensinar minha filosofia e dar chances aos mais novos. Temos as melhores condições de treinamento na Europa e precisamos tirar o maior proveito disso.”.

E: “Mas seu time se encontra no meio da tabela no momento.”

P: “Aqui (no Tottenham), os fãos não estão esperando que vençamos um título em 5 anos, como poderia acontecer há alguns anos. Com o aumento de donos de fora do futebol europeu, o treinador não é apenas um treinador mais.”.

E: “Você pensa em voltar pra Espanha?”

P: “Quando eles abaixarem os impostos, talvez? Mas não, sério, como diria Jorge Giffa (ex-treinador do Newell’s Old Boys), o futebol pode te levar a qualquer lugar. Quem é que te diria que, após 20 meses de ter chegado ao Espanyol, hoje, eu estaria treinando o Tottenham?

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Lucas Colenghi

Mineiro de Uberaba, no Triângulo Mineiro, graduando em Licenciatura em Letras com Habilitação em Português e Inglês. Tenho 21 anos e as duas coisas que eu mais odeio no mundo são: 1- acordar cedo; 2- escanteio curto. Gostar de futebol é legal até você resolver torcer para um time: com o Tottenham não é diferente.

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