Não sei o que fazer comigo

Não tenho sido um bom garoto.

A pressão em ser um jogador de futebol profissional é imensa. Quem está de fora não tem ideia disso. Não sabem de tudo que eu já superei para estar aqui, tentando mostrar meu futebol e sendo perseguido por toda a Europa porque as vezes perco uns gols, erro uns pênaltis decisivos, sou expulso por carrinhos injustificáveis… coisinhas bobas. Podem acontecer com qualquer um.

Ninguém sabe da minha vida. E ainda querem pagar de especialistas. Malditos caga-regras.

Só porque fui alçado a condição de ídolo em um clube, depois o troquei para um rival em que poderia ganhar mais dinheiro e lutar por títulos. Fiz gol no meu ex-clube e ri da torcida. Pois é, gosto dessas coisas. Sou zoeiro, sou gente boa. Toco pandeiro e tan tan na concentração. Apareço tomando susto nos vídeos do meu atual clube. Que cara bacanudo sou eu.

As coisas não correram bem no time de azul bebê. Arrumei um empréstimo para jogar no rival do meu antigo clube. Mesmo assim vez ou outra ainda dou umas declarações dizendo que gosto de todo mundo. Mas é verdade, não tenho mágoa de ninguém. Talvez as vezes eu perca o foco, mas é inerente a profissão. Eu preciso de apoio, preciso de perdão.

Voltei aos meus melhores dias, me senti em casa. Mas tinha que voltar pro azul bebê. Não gostavam de mim lá. O pessoal de branco gostou muito de mim na primeira temporada, tanto que me levaram pra lá em definitivo. Amarrei meu burro na sombra, fiquei sossegado e nem precisei me esforçar muito mais. Só tinha eu e o cara que faz muito gol durante os seis primeiros meses da temporada. Depois cai de rendimento. Concorrência leve, podia ficar longos períodos sem balançar a rede. Na santa paz de Deus, no mais perfeito caos. Do time, não meu!

O português não me escala mais. Minha condição física também não está uma beleza. Tá doendo, o que posso fazer? Vou ficando aí, protelando de forma quase eterna minha possível adição ao time principal. O careca gastou uma dinheirama pra trazer o soldadinho de chumbo. Pff. Não ta fazendo o caminhão de gols que eles pensavam. Acharam que o problema era eu. Me esqueceram, me largaram. Tô aí, gastando meu chinelo novo. Bonitão por sinal.

O futuro, nem sei o que me reserva. Dizem que uns turcos me queriam. Sei lá, talvez eu não seja muito bem recebido. Talvez tenha que voltar a me matar em campo, como fazia quando era novo, lá no principado. Tô com preguiça. Ganho bem, não jogo, sou bem tratado e relativamente feliz. Mas não decidi muito bem o que fazer, preciso de um plano. Me ajude!

Essa é minha carta do ano, papai noel. Tô mandando mais cedo que o de costume, pra você ler primeiro e tentar me dar um presente de natal antecipado. Não sei o que fazer comigo. Me dá uma luz, um clube novo, uma chance no time, um porsche mais brilhante que o atual.

A maré tá ruim, mas vai melhorar. Tô mandando uma fotinha minha, bem pensativo. Confio em você!

Emmanuel.

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Emerson Araujo

Jornalista, aficionado por futebol, torcedor do Cruzeiro (de nascença) e do Tottenham (desde 2005). Orgulhosamente, um dos fundadores da Tottenham Brasil e colaborador do Guerreiro dos Gramados, site voltado a cruzeirenses. Odeia Guardiolismos e acredita que atacante tem que fazer gol. Acredita que todo dia é um 7 a 1 diferente e não há nada de mau nisso. Exímio treinador no Football Manager.

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  • Lindeir Francisco

    Muito bacana, inspirador, me deu ate uma ideia pra escreve carta ao Papai Noel.

  • Emerson Araujo

    Obrigado, Lindeir!

  • Adriel

    O Gomes também precisa fazer uma carta dessas!